Não me lembro do dia em que te conheci, mas lembro-me de muitos outros depois. Fecho os olhos e vejo-te naquela cozinha escura em frente à lareira, que crepita alegremente e emana aquele calor bom e único, que nos aquece por dentro e por fora. Nessa mesma minúscula e escura cozinha estou também eu e a minha irmã. Estamos nós três sentados, tu na tua cadeira e nós as duas nos banquinhos de madeira de três pernas. No centro está aquele banco mais alto, cujo tampo serve de mesa enquanto jogamos às cartas, com aquele baralho espanhol de figuras estranhas. Jogamos ao peixinho e ao burro de contar, os únicos jogos que a minha irmã sabe jogar na sua tenra idade. Nunca fazemos batotice. Nunca a deixamos ganhar porque ela é pequena. Umas vezes perde-se, outras ganha-se. Como na vida.
Abro os olhos e regresso à realidade. A lareira está apagada e os joelhos doem-me quando me sento nos banquinhos. As cartas estão gastas e o baralho incompleto. A minha irmã já sabe muitas outras coisas, inclusive que tu não te levantavas cedo na manhã de Natal para ver as botas ao Pai Natal, enquanto este escapava apressadamente pela chaminé acima.
A realidade pesa e magoa e volto a fechar os olhos. Volto novamente à tua cozinha. Desta vez estás a assar castanhas, naquele assador velho e preto, que nos pinta as mãos e a roupa. Expectantes ouvimos o som das castanhas a estalar e sentimos-lhe o cheiro, enquanto nos vai crescendo água na boca, na antecipação pelo sabor que sabemos que vamos sentir daí a momentos. A espera não é longa mas parece infinita. Para nos acalmares um pouco o desejo, tiras do assador duas castanhas ainda mal assadas, que em vez de nos sossegarem só nos aguçam ainda mais o apetite.
Volto a abrir os olhos. É Abril e não há castanhas. Nem mesmo aquelas que guardavas meses num sitio especial para que sobrevivessem até eu chegar do estrangeiro. Mesmo que fosse Outono também não ia haver castanhas. Não na tua cozinha. Não assadas pelas tuas mãos. Pelo teu assador.
Também não voltaremos a presenciar todas as outras coisas, como por exemplo os teus talentos de encantador de galinhas, que trazias atrás de ti sempre tão amestradas. Ou de encantador de crianças, com as tuas lições da escola na ponta da língua. Ou de encantador de pessoas, com as tuas histórias de uma vida de outrora, mais dura e difícil, mas mais jovem e feliz.
Eras mágico. Sempre o foste para nós, mesmo depois de crescemos. Continuas a sê-lo mesmo um ano depois de nos teres deixado. Continuarás sempre a sê-lo enquanto viveres nas nossas memórias. Por toda a eternidade portanto, o que parece uma imensidão de tempo para viver sem ti.Tudo continua. Nada é igual.
*Texto dedicado ao meu avô.
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